Terça-feira, 7 de Abril de 2009

A Correr para Ti

 

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No dia 24 de Maio de 2007 escrevi o post que transcrevo abaixo. Recolocá-lo é a minha forma de dar a conhecer (um pouco) a corrida pela vida que a minha filha travou e por quem muitos irão correr, agora que a prova dela terminou.

 

A todos os que correrão em Constância com o nome dela no pensamento, quero dizer "obrigada". Talvez, nesse dia, não possa agradecer a todos, por isso aqui ficam os agradecimentos antecipados.

 

O tempo - dizem - é o melhor remédio para quando se perde alguém. O tempo - diz a mãe - é o pior adversário. Logo após a partida fica um adormecimento em nós, um vazio apático, quase um alívio por ver aquela luta terminada. Depois, pouco a pouco volta-se à realidade e à vida. A uma vida que se tem que reaprender a viver, a equacionar de novo, a apreender o significado das palavras "nunca mais". E a ausência traz saudade. E as saudades trazem memórias e recordações que, apesar de doces têm sempre o travo amargo do não retorno. Todos os minutos são vividos com ela no pensamento. Partiu, mas está presente. Uma presença feita de amor, invisivel, mas constante. Em vida semeou amor e recebeu muito amor. Teve um pai maravilhoso, um irmão que a idolatrava e um marido apaixonado.

 

Continuo a vida tal como ela quereria que a vivesse. Cabeça erguida e um sorriso nos lábios.

Ela inverteu os papéis. A primeira partida deveria ter sido a minha. Um pequeno engano do destino, ou uma razão transcendente que, um dia, haveremos de entender. De novo poderemos dar as mãos e sorrir uma para a outra.

 

E é de mãos dadas e de corações unidos que estarei com amigos, com rostos conhecidos e outros desconhecidos em Constância. É um gesto simples, mas de grande significado porque de coisas simples se faz a vida. E é de coisas simples que o coração se reconforta.

 
A corrida pela Vida

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Há muito tempo que não corro. Há muito tempo que não escrevo.

Parece que passou uma eternidade, mas passaram apenas duas semanas. Como dizia Natália Correia num seu belíssimo soneto "tudo é eterno num segundo" .

Há apenas uns dias atrás, buscava alento e conforto na corrida e em algumas palavras que tentavam exorcizar fantasmas. Não sei se conseguia, mas tentava. Tinha coragem e força para isso. Participava nas corridas e era feliz nesses momentos. Agora, creio que corria, mas era numa fugida louca da realidade. Numa corrida sem tréguas, contra o desânimo, que eu impunha a mim mesma.

 

Hoje, não posso escrever. A realidade é sofrida em demasia para caber em palavras. O presente tão presente e o futuro tão incerto que não permite ser expresso numas quantas frases soltas.

 

Não sei quando voltarei a correr. Não sei se voltarei a calçar umas sapatilhas e a sair por aí, contra o vento e os pensamentos negros que teimava em deixar atrás da porta fechada.

 

Comecei uma outra corrida e, agora, quero ver portas abertas e barreiras caídas. Porém só vislumbro portas fechadas e barreiras erguidas. Nesta corrida não preciso de sapatilhas e o treino faz-se à medida que os minutos se escoam e as horas dão lugar a outras horas...

 

Perto de mim, há uma pessoa que não desiste, que teima em vencer e em viver: é a minha filha. Faz uma corrida solitária contra um invasor mortífero. Luta desigual, mas luta heróica da sua parte. Gostaria que todos a conhecessem e que o seu exemplo de vida, de coragem, de abnegação, pensando nos outros mesmo quando o seu sofrimento é atroz, fosse lição de vida para muitos. Quantos desperdiçam a própria vida...quantos desejariam poder viver...

Talvez um dia, quando o tempo permitir algum distanciamento tente pôr em palavras a sua história de vida. Ficará sempre aquém do seu testemunho maravilhoso de fé e coragem. Será um pálido reflexo do ser angelical que Deus quis me dar por filha, mas dá-la a conhecer será o mínimo a fazer, tentando infundir coragem a quem se sentir desalentado.

 

Aguardo um milagre e não quero perder o fôlego na sua súplica. Como quando comecei a correr..."se correrres e não conseguires falar é porque estás a ir depressa demais". Mas eu quero uma estrada para o céu para nela correr e ainda que chegue ofegante, bastar-me-á que num derradeiro sopro de vida, consiga alcançar a minha prece.

 

Aqui, neste mundo virtual, a quem existir com fé, peço que se juntem a mim em oração nesta luta pela vida.

 

Por ironia, a última prova em que participei foi precisamente numa corrida contra o cancro...

 

Bem hajam.

 

Ana Paula Pinto


Desabafos de alemvirtual às 11:56
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